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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Fé, política e cidadania

Fé e política O que isso tem a ver?!

Em outubro próximo, eleitores do Brasil inteiro irão
mais uma vez às urnas para eleger prefeitos e vereadores.
A vontade popular deve ser respeitada, mas a escolha consciente deve levar em consideração o futuro de
todos nos próximos anos.

Muitos têm aversão à palavra. “É coisa chata”, dizem
certas pessoas que se negam a discutir o assunto. “Política e religião não se discute” já se tornou um jargão.
No Brasil, é comum associar a política à “politicagem”
instaurada no país, colocando-o como destaque entre as
nações com alto índice de corrupção, e conformar-se com
essa realidade.

Em meio a essa conjuntura, a Igreja diz que a política deve ser discutida e mostra-a como “uma forma sublime do exercício da caridade”. Inaugurando a série de reportagens que o VOZ DE NAZARÉ publicará em decorrência das eleições para prefeito e vereador no mês de outubro a equipe do jornal foi buscar saber, esta semana, qual é a intensidade da relação entre fé e política. Mas primeiramente fez o seguinte questionamento - qual o sentido da palavra política?!  

O significado do termo “política” vai muito além do que se pode imaginar. “Todos nós somos políticos porque de uma forma ou de outra estreitamos relações sociais que envolvem poder.

Eis, portanto, o sentido da palavra política”, explica o jornalista Rogério Santos. “A verdadeira política é aquela feita para promover o bem e o acesso de todos, acabando com as desigualdades”, esclarece o autor do livro “Pobreza Política”, Pedro Demo. Segundo ele, as desigualdades seriam um mal socialmente criado, necessário para manter um sistema no qual houvesse a nítida diferença entre ricos e pobres.

O autor também ressalta que em muitos casos foi conveniente aos Estados preservarem uma “política” paternalista, resolvendo os problemas do pobre de forma imediatista, sem oferecer-lhe condições de permanecer sem tal problema posteriormente. Ou seja, mantém-se a condição do pobre que precisa sempre do auxílio do rico revestido de figura paternalista.

Pobreza política

Na opinião de Pedro Demo, haveria duas formas
de pobreza: a pobreza material e a pobreza política.
A fim de tentar acabar com essas duas formas de pobreza, a Igreja e os movimentos sociais precisaram
lutar, ao longo dos anos, para que muitos direitos fossem
garantidos. O autor chama de “pobres políticos” àqueles que não promovem uma política voltada para “o todo”.
“Pobre é aquele que oprime os outros”, diz. Já o verdadeiro homem político, segundo ele, não se ilude
acerca das suas limitações e se organiza para preservar os seus direitos. Essa forma de participação caracteriza o verdadeiro homem político, pois é um exemplo de  vitória ante as “políticas de opressão”.

“A política social combate a pobreza, enquanto que, a política de interesse procura atender a quem está mais bem atendido. Hoje, a própria tecnologia está a serviço desse sistema desigual e procura alimentá-lo, mas, o verdadeiro homem político, irá, de alguma forma, procurar contestar isso”, explica Pedro Demo. Segundo o Arcebispo Emérito da Paraíba (PB) e ex-vice-presidente da CNBB, Dom Marcelo Pinto Carvalheira, é preciso resgatar o interesse e o encantamento do povo pela boa política. “Resgatar a esperança através de políticos comprometidos. Assim têm refletido os nossos grupos de ‘Fé e Política’, em conjunto com associações de bairro e movimentos sociais”, disse.

Para esse religioso, o comportamento e a Palavra de Jesus, em suas linhas essenciais, constituem elemento normativo para a existência cristã e, por conseguinte, para o nosso compromisso político. “Ele vivia no regime teocrático do judaísmo, regime de absoluta unidade entre a religião e o Estado. O Sumo Sacerdote era a maior autoridade religiosa e também, com o Sinédrio, a suprema autoridade do Estado. Essa situação era respeitada pelo Procurador Romano”, explica. Segundo Dom Marcelo, pela sua referência ao bem comum dos homens que vivem em comunidade, a práxis política não tem apenas dimensões morais, mas ela mesma é práxis moral, embora nem todas as práxis morais sejam práxis políticas.

A chamada “laicidade” para a doutrina católica é entendida como autonomia dos campos civil e político em relação aos setores religiosos eclesiásticos, mas não em relação ao campo moral, pois ela está voltada essencialmente para o bem comum, que implica em busca da justiça, da liberdade, da paz, da igualdade, do respeito à vida humana. “Pontos comuns entre religião e política não impedem sua distinção e autonomia recíproca. Essa laicidade, portanto, não significa ateísmo, nem agnosticismo do Estado. Na verdade, a laicidade já é um valor adquirido pela Igreja e pertence ao patrimônio da civilização”, explica, com base na Nota Doutrinal da Congregação da Doutrina da Fé de fevereiro de 2003.

Centro Nacional Fé e Política

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) fundou em 2005 o  Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara. O objetivo foi colaborar para a formação de leigos inseridos no mundo da política. De acordo com o ex-presidente da CNBB, Cardeal Geraldo Majella Agnelo, “o centro pretende contribuir para o exercício da política, que é uma forma sublime do exercício da caridade”. Para isso, o centro oferece cursos, organiza seminários, encontros e simpósios, além de estabelecer uma rede de assessores e realizar publicações. A ideia de criar um centro nacional buscou atender ao chamado do Papa João Paulo II que, na Exortação Christifidelis Laici, após o Sínodo sobre os Leigos, pediu que a formação dos leigos e leigas fosse prioridade nas igrejas locais.

Voto e cidadania

O primeiro turno das eleições municipais de 2012 será no dia 7 de outubro e o segundo, caso haja, ocorrerá no dia 28 do mesmo mês. O calendário foi aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ficou definido que os partidos terão até 7 de outubro deste ano para obter registro no TSE se quiserem participar das próximas eleições. O limite é o mesmo para os candidatos. Em outubro milhares de brasileiros irão exercer sua cidadania votando nos(as) candidatos(as) que consideram dignos de assumirem os postos de prefeito(a) e vereador(a) dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros. Mas o que é cidadania?!
O significado da palavra foi uma dúvida da dona de casa Lindalva Santos durante anos. Apesar de ter ouvido falar várias vezes de cidadania, apenas hoje, com seus 32 anos, soube o que realmente significa: o conjunto de direitos e deveres aos quais um indivíduo está sujeito em relação à sociedade em que vive.

Assim como Lindalva, muitos brasileiros não sabem que ser cidadão é ter consciência de que é sujeito de direitos à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade, entre outros direitos civis, políticos e sociais. Mas esse é um dos lados da moeda. Segundo o advogado Marcos Silvio de Santana, cidadania pressupõe também deveres. “O cidadão tem de ser cônscio das suas responsabilidades enquanto parte integrante de um grande e complexo organismo que é a coletividade, a nação, o Estado, para cujo bom funcionamento todos têm de dar sua parcela de contribuição”.

Fonte: Fundação Nazaré

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A política na Doutrina Social da Igreja. Por Pe. José Ionilton

Apresentaremos a seguir textos dos documentos do Magistério da Igreja sobre a dimensão política da vocação cristã. Esperamos, com isto, oferecer aos nossos leitores e às nossas leitoras um subsídio para estudo pessoal e pastoral neste ano de eleição.
1. Concílio Vaticano II
<> Gaudium et Spes
75f - "Os que são idôneos ou possam tornar-se para exercer a difícil e ao mesmo tempo nobilíssima arte política, preparem-se para ela e procurem exerce-la, esquecidos do proveito próprio e de vantagens materiais. Pela integridade e com prudência, lutem contra a injustiça e a opressão, ou o absolutismo e a intolerância, seja de um homem ou de um partido político; dediquem-se, porém, ao bem de todos com sinceridade e retidão, bem mais, com o amor e a coragem exigidos pela vida pública".
Podemos destacar:
a) A definição de política como "difícil e nobilíssima arte". Não se justifica, portanto, a desculpa de muitos cristãos e de muitas cristãs de não gostarem de política, afirmando ser ela uma coisa suja. Pode ser difícil, mas a política é uma coisa nobre, boa;
b) A necessidade de preparação daqueles e daquelas que se sentem convocados para a atuação na política, aparece bem claro na afirmação:"preparem-se para ela". Aqui a importância das Escolas de Fé e Política que já existem em muitas Comunidades, Paróquias e Dioceses. Onde não existe fica o desafio para implantar, pois, a Igreja precisa preocupar-se com a formação dos que já atuam e dos que querem atuar no mundo da política;
c) O convite para exercer a política sem querer tirar "proveito próprio". Como faz falta a existência de políticos assim, que se "dediquem ao bem de todos", sem buscar "vantagens" pessoais. 
d) O político cristão deverá ter por missão "lutar contra a injustiça e a opressão". O cristão e a cristã atuam na política para promoverem a justiça, o respeito à pessoa humana, a igualdade de direitos e deveres, a partilha e a paz.
75a  - "Lembrem-se, portanto, todos os cidadãos ao mesmo tempo do direito e do dever de usar livremente seu voto para promover o bem comum".
Destacamos aqui o convite para se usar livremente do voto. Temos assim uma das qualidades do voto cidadão, que seja livre, ou seja, devemos votar na pessoa que nossa consciência aponta como a que melhor pode "promover o bem comum". Bem comum que é a meta final da ação política autêntica.
<> Apostolicam Actuositatem
14a - "Os católicos versados em política, e devidamente firmes na fé e na doutrina cristã, não recusem cargos públicos, se puderem por uma digna administração prover o bem comum e ao mesmo tempo abrir caminho para o Evangelho".
Podemos destacar:
a) O convite aos católicos e às católicas para não recusarem cargos públicos. Um convite bastante provocador e ao mesmo tempo incentivador. Provocadorpara quem defende a tese da ausência da política; incentivador para quem já assumiu esta difícil e nobilíssima missão;
b) A razão pela qual o cristão e a cristã deve assumir cargos públicos:promover o bem comum e abrir caminho para o evangelho. Para que razões mais significativas para esta atuação política dos cristãos e das cristãs através do exercício de cargos públicos, seja aqueles que se assume a partir das eleições, seja aqueles que se assume por concurso ou ainda os que se assume como cargo de confiança.
2. Conferências do Episcopado latino americano
<> Medellín
16b  - "O exercício da autoridade política e suas decisões têm como única finalidade o bem comum".
Medellín afirma que a "única finalidade" da política é a promoção do "bem comum". É para isto que existe a política e é para isto que os cristãos e cristãs devem atuar na política: promover o bem comum, usando as palavras de Jesus, promover a vida para todos e vida em abundância (cf. Jo 10,10).
16d - "A carência de uma consciência política (...) torna imprescindível a ação educadora da Igreja, com vistas a que os cristãos considerem sua participação na vida política da nação como um dever de consciência e como o exercício da caridade em seu sentido mais nobre e eficaz para a vida da comunidade".
Em 1968 constatava-se uma carência de consciência política entre os cristãos. 40 anos depois podemos dizer que houve uma melhora desta consciência, mas ainda é real para nós esta constatação de Medellín. Como precisamos avançar nesta consciência do valor da política para a construção de um mundo melhor.
A atualidade da afirmação de que se "torna imprescindível a ação educadora da Igreja"Tal como em 1968, hoje a Igreja precisa educar para a cidadania, para a vivência da política. Esta afirmativa de Medellín vem reforçar a importância das Escolas de Fé e Política. Precisamos apoiar as que funcionam; revitalizar as que passam por dificuldade; começar onde não existe. Elas são, de fato, imprescindíveis para o crescimento da consciência política dos cristãos e das cristãs em nossas comunidades, paróquias e dioceses.
<> Puebla
513 - "A dimensão política, constitutiva da pessoa, representa um aspecto relevante da convivência humana".
É muito significativa a afirmação de que a dimensão política é parte da vida da pessoa humana. Puebla com esta afirmação está nos indicando que quando deixamos de assumir a dimensão política em nossas vidas, estamos nos tornando menos gente, menos humanos.
514 - "A fé cristã não despreza a atividade política; pelo contrário, a valoriza e a tem em alta estima".
Esta é uma das mais belas declarações do valor da política para os cristãos e as cristãs. A fé cristã além de não desprezar a atividade política, a valoriza e vai muito mais além, a tem em alta estima. Quem assume, valoriza e tem em alta estima a atividade política está vivendo autenticamente sua fé cristã, está em perfeita sintonia com a doutrina social da Igreja. Já quem se omite, despreza, desvaloriza a atividade política está agindo de forma contrária à fé cristã e ao ensinamento da Igreja.
515 - "O cristianismo deve evangelizar a totalidade da existência humana, inclusive a dimensão política".
Puebla inclui a dimensão política no rol das atividades da evangelização do cristianismo. De fato, existe uma tendência da parte de alguns cristãos e de algumas cristãs de entenderem a evangelização, apenas, numa dimensão espiritual. O documento de Puebla é claro ao indicar a dimensão política da existência humana como campo da ação evangelizadora de nossa Igreja.
<> Santo Domingo
99 - "Os pastores procuraremos, com objetivo pastoral imediato, fomentar a preparação de leigos que se sobressaiam no campo da educação, da política, dos meios de comunicação social, da cultura e do trabalho".
É interessante notar com os Bispos definiram como objetivo pastoral imediato a preparação dos leigos para atuarem em diversos campos da sociedade, incluindo aí a política. Com isto vemos a importância da política para a vida e a missão dos cristãos leigos e das cristãs leigas. Cabe avaliarmos se depois de 16 anos da promulgação do documento de Santo Domingo, se as dioceses e paróquias do Brasil estão fomentando esta formação dos leigos e das leigas e se estão sendo formados para atuarem no mundo da política. Se sim, que bom! Se, não, está na hora de lembrarmos aos nossos bispos e párocos este seu compromisso.
<> Aparecida
75 - "Vem se fortalecendo a democracia participativa e estão se criando maiores espaços de participação política".
Destaca-se aqui a constatação que o documento de Aparecida faz de que ademocracia participativa está se fortalecendo. Atuar nestes espaços de democracia participativa é uma das formas de se viver a dimensão política de nossa vocação cristã. Será que estamos atuando nos Conselhos Municipais, nos grupos do Orçamento Participativo, no acompanhamento das atividades da Câmara de Vereadores, na fiscalização da aplicação correta dos recursos públicos pelo poder executivo municipal, estadual e federal? Se sim, estamos incluídos entre os que estão fortalecendo a democracia participativa em nosso país; se não, é hora de começar, depende de nós, vamos ocupar nosso lugar, vamos ser o sal da terra e a luz do mundo.
77 - "Em amplos setores da população, e especialmente entre os jovens, cresce o desencanto pela política e particularmente pela democracia".
É preocupante esta constatação do documento de Aparecida. A pior coisa é o desencanto, pois, perdemos a vontade de colaborar. Portanto, devemos trabalhar como Igreja para não deixar que este desencanto permaneça ou cresça, mas, sim ajudar a fazer com que nossa presença de cristãos e cristãs no mundo da política sirva para dar uma novo rosto à política e devolva a motivação à população, de modo especial aos jovens, de participar da vida pública e de acreditar na democracia.
3. Documentos dos Papas
<> Paulo VI na Exortação Apostólica "Evangelii Nuntiandi"
70 - "O campo próprio da sua atividade evangelizadora (referia-se aos Leigos) é o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes...".
A política, portanto, é um campo próprio da atividade evangelizadora dos cristãos leigos e das cristãs leigas. O que significa dizer que o leigo e a leiga não podem deixar de atuar na política, porque se não atuarem estarão vivendo de forma incompleta a sua vocação. Paulo VI reconhece que esta missão na política é vasta e complicada, mas é missão e precisa ser assumida pelos leigos e leigas.
<> João Paulo II na Exortação Apostólica "Christifideles Laici"
42 - "Os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação política, (...) destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum".
Em outras palavras os fiéis leigos não podem renunciar, abandonar, desistir da participação política. Por quê? Porque a participação política tem como objetivo final a promoção do bem comum; e o bem comum tem tudo a ver com a nossa missão evangelizadora, com a nossa missão visando a construção do Reino de Deus.
42 - "As acusações de arrivismo, idolatria de poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente nem o ceticismo nem o absenteísmo dos cristãos pela coisa pública".
Ou seja, para o Papa João Paulo II, não existe desculpa para a não participação dos leigos e leigas na política. Quanto mais nos ausentarmos, mas o mal crescerá. Aliás, gosto de dizer que o mal hoje existente na política do Brasil, por exemplo, é fruto desta ausência dos leigos e das leigas da nossa igreja nos partidos políticos, nos cargos públicos e nos movimentos populares. Somos luz, assim nos disse Jesus (cf. Mt 5,13). A luz serve exatamente para afugentar as trevas. Se existe as trevas do egoísmo, da corrupção, da idolatria do poder, do perigo moral na política no mundo em que vivemos, faz-se mais do que necessário a presença dos cristãos leigos e das cristãs leigas para com a força do evangelho, fazer resplandecer a luz das virtudes da honestidade, transparência, partilha, compromisso com a vida, com a justiça e com a paz.
4. CNBB
<> Estudos nº 2 - Igreja e Política
05 - "A política é o conjunto de ações pelas quais os homens e as mulheres buscam uma forma de convivência entre os indivíduos, grupos, nações, que ofereça condições para a realização do bem comum".
A CNBB nos dá uma definição clara do que é política, que poderemos resumir assim: Política é um conjunto de ações para realizar o bem comum. Podemos perceber como se repete a questão da relação entre política e bem comum.  Por isso, como cristãos e cristãs, não tem sentido não atuarmos politicamente, não nos comprometermos com o bem comum, com tudo que isto implica: justiça, partilha, vida, paz. Não basta desejarmos um mundo melhor, é preciso participar das lutas para se chegar a esta conquista; a política é um caminho indispensável para a concretização deste projeto.
<> Documentos nº 40 - Igreja: comunhão e missão
219 - "Um candidato cristão, comprometido com a política partidária, por força de sua fé, nunca deveria afastar-se da sua comunidade, nem esta deveria marginalizá-lo pelo fato de ser candidato".
A CNBB nos dá neste documento dois critérios importantes para os cristãos e as cristãs que vão sair candidatos, candidatas a cargos eletivos: 1º) Não afastar-se da comunidade. Continuar sua vida normal de presença e participação na Igreja, nas celebrações litúrgicas, nas atividades pastorais e no exercício de ministérios. 2º) A comunidade não afastar a pessoa da caminhada porque ela é candidata. Isto é importantíssimo, pois, ainda existe esta atitude preconceituosa em nosso meio, ou seja, alguém é candidato tem que ser exilada da comunidade, como que se fosse portadora de uma doença contagiosa. Coloquemos isto em prática em nossa diocese, paróquia e comunidade e veremos frutos bons surgirem a partir de nós para a vida política do país, dos estados e dos municípios, alcançando assim o que diz este mesmo documento no nº 223:  alcançando assim o que diz este mesmo documento no na doença contagiosa. Coloquemos isto em pra de cristas atividades da C"A Igreja espera que os cristãos oriundos das CEB´s e de outros grupos e movimentos eclesiais sejam verdadeiras sementeiras de uma nova política no país".
<> Documento nº 62: Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas
132 - "Além da saudável e necessária participação de cristãos na política partidária, é necessário incrementar os grupos de reflexão e de acompanhamento das atividades políticas, exercendo cada vez mais a aproximação entre o compromisso de fé e o exercício da justiça por meio dos organismos de representação popular".
A CNBB afirma ser a política partidária saudável e necessária. Assimilar isto nos ajudará a superar qualquer resquício de preconceito contra a atuação dos cristãos leigos e das cristãs leigas nos partidos políticos. Façamos uma pesquisa em nossa comunidade para descobrirmos quantos são filiados a algum partido e a depender do resultado comecemos a trabalhar para incrementar a nossa presença e atuação neste campo de serviço social e eclesial.
A CNBB está também incentivando que se incremente a presença e atuação dos cristãos leigos e das cristãs leigas em grupos de reflexão e acompanhamento das atividades políticas. O próprio documento da CNBB, neste mesmo número assim se expressa: "Os grupos de Fé e Política devem ser incentivados e preparados para, entre outras atividades, acompanhar criticamente os trabalhos do legislativo local, fiscalizar a execução do orçamento público, elaborar projetos de lei de iniciativa popular, sensibilizar a opinião pública, divulgar relatórios sobre as atividades de vereadores e deputados, bem como dos responsáveis pelo Executivo".
<> Documento nº 80: Evangelização e missão profética da Igreja2.4. (página 96 do texto publicado pelas Paulinas) - "A política pode ser um caminho privilegiado para o serviço da justiça, ‘ uma forma sublime da caridade'. (...) a Igreja quer reabilitar a política, denunciando e lutando contra a corrupção, participando da administração da ‘res-pública', encorajando os cristãos a ‘entrar' na política e acompanhando os que já atuam neste campo".

Destaca-se neste texto:
a) A política como caminho privilegiado para o estabelecimento da justiça social;
b) A política como forma sublime de caridade, mandamento maior de Jesus.
c) A Igreja quer reabilitar a política. Reabilitar e não condenar; ajudar a melhorar a partir de dentro do mundo da política e não fugindo dela e acusando-a de ruim, coisa suja, etc.
d) A Igreja se compromete a denunciar e lutar contra a corrupção, bem como a participar da administração da coisa pública. Como anda o compromisso de nossa comunidade, paróquia e diocese com a aplicação da lei 9840 de combate a corrupção eleitoral? E nosso testemunho interno como Igreja na administração da economia e dos bens de nossas comunidades, paróquias e dioceses? Agimos com transparência, justiça e honestidade? E o que estamos fazendo para que os recursos públicos sejam corretamente aplicados? Estamos presentes nos organismos de fiscalização e acompanhamento da aplicação destes recursos?
e) Encorajar os cristãos para entrar e acompanhar os que já estão dentro. Que belo programa de evangelização. Como este programa está sendo cumprido em nossa realidade de diocese, paróquia e comunidade? O que temos feito para encorajar e o que temos feito para acompanhar?
<> Documento 87: Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil
187 - "Incentive-se cada vez mais a participação social e política dos cristãos leigos e leigas nos diversos níveis e instituições, promovendo-se cursos, grupos de reflexão, formação e ação".Neste documento a CNBB trás uma palavra de incentivo para cada vez mais acontecer uma participação social e política dos cristãos leigos e leigas. Isto faz parte dos objetivos da ação evangelizadora da Igreja no Brasil até 2010. Foi interessante a expressão "cada vez mais". Ela indica que esta participação social e política já existe, mas que precisa crescer, sempre mais e sempre melhor. Então, vamos lá, façamos nossa parte; ocupemos nosso espaço; cobremos apoio de nossos pastores (bispos e párocos); valorizemos o que já existe no campo da formação; colaboremos para que surjam novas adesões; construamos parcerias com cristãos de outras igrejas e com homens e mulheres de boa vontade crentes de outras religiões ou sem religião.

Pe. José Ionilton
Religioso Vocacionista
Publicado na Revista Espírito, edição nº 112


Fonte: Paróquia Aparecida

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Doutrina da Fé: NOTA DOUTRINAL Sobre participação do Católico na vida política


CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
NOTA DOUTRINAL 
sobre algumas questões relativas
à participação e comportamento dos católicos na vida política

A Congregação para a Doutrina da Fé, ouvido também o parecer do Pontifício Conselho para os Leigos, achou por bem publicar a presente “Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política”. A Nota é endereçada aos Bispos da Igreja Católica e, de modo especial, aos políticos católicos e a todos os fiéis leigos chamados a tomar parte na vida pública e política nas sociedades democráticas.

I. Um ensinamento constante
1. O empenho do cristão no mundo em dois mil anos de história manifestou-se seguindo diversos percursos. Um deles concretizou-se através da participação na acção política: os cristãos, afirmava um escritor eclesiástico dos primeiros séculos, “participam na vida pública como cidadãos”[1]. A Igreja venera entre os seus Santos numerosos homens e mulheres que serviram a Deus através do seu generoso empenho nas actividades políticas e de governo. Entre eles, São Tomás Moro, proclamado Padroeiro dos Governantes e dos Políticos, soube testemunhar até ao martírio a “dignidade inalienável da consciência”[2]. Embora sujeito a diversas formas de pressão psicológica, negou-se a qualquer compromisso e, sem abandonar “a constante fidelidade à autoridade e às legítimas instituições” em que se distinguiu, afirmou com a sua vida e com a sua morte que “o homem não pode separar-se de Deus nem a política da moral”[3].  


As sociedades democráticas actuais, onde louvavelmente todos participam na gestão da coisa pública num clima de verdadeira liberdade[4], exigem novas e mais amplas formas de participação na vida pública da parte dos cidadãos, cristãos e não cristãos. Todos podem, de facto, contribuir através do voto na eleição dos legisladores e dos governantes e, também de outras formas na definição das orientações políticas e das opções legislativas que, no seu entender, melhor promovam o bem comum[5]. Num sistema político democrático, a vida não poderia processar-se de maneira profícua sem o envolvimento activo, responsável e generoso de todos, “mesmo na diversidade e complementaridade de formas, níveis, funções e responsabilidades”[6].


Através do cumprimento dos comuns deveres civis, “guiados pela consciência cristã”[7] e em conformidade com os valores com ela congruentes, os fiéis leigos desempenham também a função que lhes é própria de animar cristãmente a ordem temporal, no respeito da natureza e da legítima autonomia da mesma[8], e cooperando com os outros cidadãos, segundo a sua competência específica e sob a própria responsabilidade[9]. É consequência deste ensinamento fundamental do Concílio Vaticano II que “os fiéis leigos não podem de maneira nenhuma abdicar de participar na ‘política’, ou seja, na multíplice e variada acção económica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover de forma orgânica e institucional o bem comum”[10], que compreende a promoção e defesa de bens, como são a ordem pública e a paz, a liberdade e a igualdade, o respeito da vida humana e do ambiente, a justiça, a solidariedade, etc.


A presente Nota não tem a pretensão de repropor o inteiro ensinamento da Igreja em matéria, aliás resumido, nas suas linhas essenciais, no Catecismo da Igreja Católica; entende apenas relembrar alguns princípios próprios da consciência cristã, que inspiram o empenho social e político dos católicos nas sociedades democráticas[11]. Fá-lo, porque nestes últimos tempos, não raras vezes sob a pressão dos acontecimentos, apareceram orientações ambíguas e posições discutíveis, que tornam oportuna a clarificação de aspectos e dimensões importantes da temática em questão.

II. Alguns pontos fulcrais no actual debate cultural e político
2. A sociedade civil encontra-se hoje dentro de um processo cultural complexo, que evidencia o fim de uma época e a incerteza relativamente à nova que desponta no horizonte. As grandes conquistas de que se é espectadores obrigam a rever o caminho positivo que a humanidade percorreu no progresso e na conquista de condições de vida mais humanas. O crescimento de responsabilidades para com os Países ainda em fase de desenvolvimento é certamente um sinal de grande relevância, que denota a crescente sensibilidade pelo bem comum. Ao mesmo tempo, porém, não se podem ignorar os graves perigos, para os quais certas tendências culturais tentam orientar as legislações e, por conseguinte, os comportamentos das futuras gerações. 


Constata-se hoje um certo relativismo cultural, que apresenta sinais evidentes da sua presença, quando teoriza e defende um pluralismo ético que sanciona a decadência e a dissolução da razão e dos princípios da lei moral natural. Em conformidade com essa tendência, não é raro, infelizmente, encontrar, em declarações públicas, afirmações que defendem que esse pluralismo ético é condição para a democracia[12]. Assim, verifica-se que, por um lado, os cidadãos reivindicam para as próprias escolhas morais a mais completa autonomia e, por outro, os legisladores julgam respeitar essa liberdade de escolha, quando formulam leis que prescindem dos princípios da ética natural, deixando-se levar exclusivamente pela condescendência com certas orientações culturais ou morais transitórias[13], como se todas as concepções possíveis da vida tivessem o mesmo valor. Ao mesmo tempo, invocando erroneamente o valor da tolerância, pede-se a uma boa parte dos cidadãos – entre eles, aos católicos – que renunciem a contribuir para a vida social e política dos próprios Países segundo o conceito da pessoa e do bem comum que consideram humanamente verdadeiro e justo, a realizar através dos meios lícitos que o ordenamento jurídico democrático põe, de forma igual, à disposição de todos os membros da comunidade política. Basta a história do século XX para demonstrar que a razão está do lado daqueles cidadãos que consideram totalmente falsa a tese relativista, segundo a qual, não existiria uma norma moral, radicada na própria natureza do ser humano e a cujo ditame deva submeter-se toda a concepção do homem, do bem comum e do Estado. 
3. Uma tal concepção relativista do pluralismo nada tem a ver com a legítima liberdade dos cidadãos católicos de escolherem, entre as opiniões políticas compatíveis com a fé e a lei moral natural, a que, segundo o próprio critério, melhor se coaduna com as exigências do bem comum. A liberdade política não é nem pode ser fundada sobre a ideia relativista, segundo a qual, todas as concepções do bem do homem têm a mesma verdade e o mesmo valor, mas sobre o facto de que as actividades políticas visam, vez por vez, a realização extremamente concreta do verdadeiro bem humano e social, num contexto histórico, geográfico, económico, tecnológico e cultural bem preciso. Do concreto da realização e da diversidade das circunstâncias brota necessariamente a pluralidade de orientações e de soluções, que porém devem ser moralmente aceitáveis. Não cabe à Igreja formular soluções concretas – e muito menos soluções únicas – para questões temporais, que Deus deixou ao juízo livre e responsável de cada um, embora seja seu direito e dever pronunciar juízos morais sobre realidades temporais, quando a fé ou a lei moral o exijam[14]. Se o cristão é obrigado a “admitir a legítima multiplicidade e diversidade das opções temporais”[15], é igualmente chamado a discordar de uma concepção do pluralismo em chave de relativismo moral, nociva à própria vida democrática, que tem necessidade de bases verdadeiras e sólidas, ou seja, de princípios éticos que, por sua natureza e função de fundamento da vida social, não são “negociáveis”. 


No plano da militância política concreta, há que ter presente que o carácter contingente de algumas escolhas em matéria social, o facto de muitas vezes serem moralmente possíveis diversas estratégias para realizar ou garantir um mesmo valor substancial de fundo, a possibilidade de interpretar de maneira diferente alguns princípios basilares da teoria política, bem como a complexidade técnica de grande parte dos problemas políticos, explicam o facto de geralmente poder dar-se uma pluralidade de partidos, dentro dos quais os católicos podem escolher a sua militância para exercer – sobretudo através da representação parlamentar – o seu direito-dever na construção da vida civil do seu País[16]. Tal constatação óbvia não pode todavia confundir-se com um indistinto pluralismo na escolha dos princípios morais e dos valores substanciais, a que se faz referência. A legítima pluralidade de opções temporais mantém íntegra a matriz donde promana o empenho dos católicos na política, e esta matriz liga-se directamente à doutrina moral e social cristã. É com um tal ensinamento que os leigos católicos têm de confrontar-se constantemente para poder ter a certeza que a própria participação na vida política é pautada por uma coerente responsabilidade para com as realidades temporais. 
A Igreja é consciente que se, por um lado, a via da democracia é a que melhor exprime a participação directa dos cidadãos nas escolhas políticas, por outro, isso só é possível na medida que exista, na sua base, uma recta concepção da pessoa[17]. Sobre este princípio, o empenho dos católicos não pode descer a nenhum compromisso; caso contrário, viriam a faltar o testemunho da fé cristã no mundo e a unidade e coerência interiores dos próprios fiéis. A estrutura democrática, sobre que pretende construir-se um Estado moderno, seria um tanto frágil, se não tiver como seu fundamento a centralidade da pessoa. É, aliás, o respeito pela pessoa que torna possível a participação democrática. Como ensina o Concílio Vaticano II, a tutela “dos direitos da pessoa humana é condição necessária para que os cidadãos, individualmente ou em grupo, possam participar activamente na vida e na gestão da coisa pública”[18]. 


4. É a partir daqui que se estende a complexa teia de problemáticas actuais, que não tem comparação com as dos séculos passados. O avanço da ciência, com efeito, permitiu atingir metas que abalam a consciência e obrigam a encontrar soluções capazes de respeitar, de forma coerente e sólida, os princípios éticos. Assiste-se, invés, a tentativas legislativas que, sem se preocuparem com as consequências das mesmas para a existência e o futuro dos povos na formação da cultura e dos comportamentos sociais, visam quebrar a intangibilidade da vida humana. Os católicos, em tal emergência, têm o direito e o dever de intervir, apelando para o sentido mais profundo da vida e para a responsabilidade que todos têm perante a mesma. João Paulo II, na linha do perene ensinamento da Igreja, afirmou repetidas vezes que quantos se encontram directamente empenhados nas esferas da representação legislativa têm a “clara obrigação de se opor” a qualquer lei que represente um atentado à vida humana. Para eles, como para todo o católico, vale a impossibilidade de participar em campanhas de opinião em favor de semelhantes leis, não sendo a ninguém consentido apoiá-las com o próprio voto[19]. Isso não impede, como ensinou João Paulo II na Carta Encíclica Evangelium vitae sobre a eventualidade de não ser possível evitar ou revogar totalmente uma lei abortista já em vigor ou posta em votação, que “um parlamentar, cuja pessoal oposição absoluta ao aborto seja clara e por todos conhecida, possa licitamente dar o próprio apoio a propostas tendentes a limitar os danos de uma tal lei e a diminuir os seus efeitos negativos no plano da cultura e da moralidade pública”[20]. 
Neste contexto, há que acrescentar que a consciência cristã bem formada não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a actuação de um programa político ou de uma só lei, onde os conteúdos fundamentais da fé e da moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos. Uma vez que a fé constitui como que uma unidade indivisível, não é lógico isolar um só dos seus conteúdos em prejuízo da totalidade da doutrina católica. Não basta o empenho político em favor de um aspecto isolado da doutrina social da Igreja para esgotar a responsabilidade pelo bem comum. Nem um católico pode pensar em delegar a outros o empenho que, como cristão, lhe vem do evangelho de Jesus Cristo de anunciar e realizar a verdade sobre o homem e o mundo. 


Quando a acção política se confronta com princípios morais que não admitem abdicações, excepções ou compromissos de qualquer espécie, é então que o empenho dos católicos se torna mais evidente e grávido de responsabilidade. Perante essas exigências éticas fundamentais e irrenunciáveis, os crentes têm, efectivamente, de saber que está em jogo a essência da ordem moral, que diz respeito ao bem integral da pessoa. É o caso das leis civis em matéria de aborto e de eutanásia (a não confundir com a renúncia ao excesso terapêutico, legítimo, mesmo sob o ponto de vista moral), que devem tutelar o direito primário à vida, desde o seu concebimento até ao seu termo natural. Do mesmo modo, há que afirmar o dever de respeitar e proteger os direitos do embrião humano. Analogamente, devem ser salvaguardadas a tutela e promoção da família, fundada no matrimónio monogâmico entre pessoas de sexo diferente e protegida na sua unidade e estabilidade, perante as leis modernas em matéria de divórcio: não se pode, de maneira nenhuma, pôr juridicamente no mesmo plano com a família outras formas de convivência, nem estas podem receber, como tais, um reconhecimento legal. Igualmente, a garantia da liberdade de educação, que os pais têm em relação aos próprios filhos, é um direito inalienável, aliás reconhecido nas Declarações internacionais dos direitos humanos. No mesmo plano, devem incluir-se a tutela social dos menores e a libertação das vítimas das modernas formas de escravidão (pense-se, por exemplo, na droga e na exploração da prostituição). Não podem ficar fora deste elenco o direito à liberdade religiosa e o progresso para uma economia que esteja ao serviço da pessoa e do bem comum, no respeito da justiça social, do princípio da solidariedade humana e do de subsidariedade, segundo o qual “os direitos das pessoas, das famílias e dos grupos, e o seu exercício têm de ser reconhecidos”[21]. Como não incluir, enfim, nesta exemplificação, o grande tema da paz? Uma visão irénica e ideológica tende, por vezes, a secularizar o valor da paz; noutros casos, cede-se a um juízo ético sumário, esquecendo a complexidade das razões em questão. A paz é sempre “fruto da justiça e efeito da caridade”[22]; exige a recusa radical e absoluta da violência e do terrorismo e requer um empenho constante e vigilante da parte de quem está investido da responsabilidade política. 

III. Princípios da doutrina católica sobre laicidade e pluralismo
5. Se, perante tais problemáticas, é lícito pensar em utilizar uma pluralidade de metodologias que reflectem sensibilidades e culturas diferentes, já não é consentido a nenhum fiel apelar para o princípio do pluralismo e da autonomia dos leigos em política, para favorecer soluções que comprometam ou atenuem a salvaguarda das exigências éticas fundamentais ao bem comum da sociedade. Por si, não se trata de “valores confessionais”, uma vez que tais exigências éticas radicam-se no ser humano e pertencem à lei moral natural. Não exigem, da parte de quem as defende, a profissão de fé cristã, embora a doutrina da Igreja as confirme e tutele, sempre e em toda a parte, como um serviço desinteressado à verdade sobre o homem e ao bem comum das sociedades civis. Não se pode, por outro lado, negar que a política deve também regular-se por princípios que têm um valor absoluto próprio, precisamente por estarem ao serviço da dignidade da pessoa e do verdadeiro progresso humano.


6. O apelo que muitas vezes se faz à “laicidade” que deveria guiar à acção dos católicos, exige uma clarificação, não apenas de terminologia. A promoção segundo consciência do bem comum da sociedade política nada tem a ver com o “confessionalismo” ou a intolerância religiosa. Para a doutrina moral católica, a laicidade entendida como autonomia da esfera civil e política da religiosa e eclesiástica – mas não da moral – é um valor adquirido e reconhecido pela Igreja, e faz parte do património de civilização já conseguido[23]. João Paulo II repetidas vezes alertou para os perigos que derivam de qualquer confusão entre esfera religiosa e esfera política. “São extremamente delicadas as situações, em que uma norma especificamente religiosa se torna, ou tende a tornar-se, lei do Estado, sem que se tenha na devida conta a distinção entre as competências da religião e as da sociedade política. Identificar a lei religiosa com a civil pode efectivamente sufocar a liberdade religiosa e até limitar ou negar outros direitos humanos inalienáveis”[24]. Todos os fiéis têm plena consciência de que os actos especificamente religiosos (profissão da fé, prática dos actos de culto e dos sacramentos, doutrinas teológicas, comunicação recíproca entre as autoridades religiosas e os fiéis, etc.) permanecem fora das competências do Estado, que nem deve intrometer-se neles nem, de forma alguma, exigi-los ou impedi-los, a menos de fundadas exigências de ordem pública. O reconhecimento dos direitos civis e políticos e a realização de serviços públicos não podem estar condicionados a convicções ou prestações de natureza religiosa da parte dos cidadãos.


Completamente diferente é a questão do direito-dever dos cidadãos católicos, aliás como de todos os demais cidadãos, de procurar sinceramente a verdade e promover e defender com meios lícitos as verdades morais relativas à vida social, à justiça, à liberdade, ao respeito da vida e dos outros direitos da pessoa. O facto de algumas destas verdades serem também ensinadas pela Igreja não diminui a legitimidade civil e a “laicidade” do empenho dos que com elas se identificam, independentemente do papel que a busca racional e a confirmação ditada pela fé tenham tido no seu reconhecimento por parte de cada cidadão. A “laicidade”, de facto, significa, em primeiro lugar, a atitude de quem respeita as verdades resultantes do conhecimento natural que se tem do homem que vive em sociedade, mesmo que essas verdades sejam contemporaneamente ensinadas por uma religião específica, pois a verdade é uma só. Seria um erro confundir a justa autonomia, que os católicos devem assumir em política, com a reivindicação de um princípio que prescinde do ensinamento moral e social da Igreja.
Intervindo nesta matéria, o Magistério da Igreja não pretende exercer um poder político nem eliminar a liberdade de opinião dos católicos em questões contingentes. Entende, invés – como é sua função própria – instruir e iluminar a consciência dos fiéis, sobretudo dos que se dedicam a uma participação na vida política, para que o seu operar esteja sempre ao serviço da promoção integral da pessoa e do bem comum. O ensinamento social da Igreja não é uma intromissão no governo de cada País. Não há dúvida, porém, que põe um dever moral de coerência aos fiéis leigos, no interior da sua consciência, que é única e unitária. “Não pode haver, na sua vida, dois caminhos paralelos: de um lado, a chamada vida ‘espiritual’, com os seus valores e exigências, e, do outro, a chamada vida ‘secular’, ou seja, a vida de família, de trabalho, das relações sociais, do empenho político e da cultura. O ramo, enxertado na videira, que é Cristo, leva a sua linfa a todo o sector da actividade e da existência. Pois todos os variados campos da vida laical fazem parte do plano de Deus, que quer que eles sejam como que o ‘lugar histórico’ onde se revela e se realiza o amor de Jesus Cristo para glória do Pai e serviço aos irmãos. Qualquer actividade, qualquer situação, qualquer empenho concreto – quais, por exemplo, a competência e a solidariedade no trabalho, o amor e a dedicação à família e à educação dos filhos, o serviço social e político, a proposta da verdade no ¬âmbito da cultura – são ocasiões providenciais para um ‘constante exercício da fé, da esperança e da caridade’”[25]. Viver e agir politicamente em conformidade com a própria consciência não significa acomodar-se passivamente em posições estranhas ao empenho político ou numa espécie de confessionalismo; é, invés, a expressão com que os cristãos dão o seu coerente contributo para que, através da política, se instaure um ordenamento social mais justo e coerente com a dignidade da pessoa humana.


Nas sociedades democráticas todas as propostas são discutidas e avaliadas livremente. Aquele que, em nome do respeito da consciência individual, visse no dever moral dos cristãos de ser coerentes com a própria consciência um sinal para desqualificá-los politicamente, negando a sua legitimidade de agir em política de acordo com as próprias convicções relativas ao bem comum, cairia numa espécie de intolerante laicismo. Com tal perspectiva pretende-se negar, não só qualquer relevância política e cultural da fé cristã, mas até a própria possibilidade de uma ética natural. Se assim fosse, abrir-se-ia caminho a uma anarquia moral, que nada e nunca teria a ver com qualquer forma de legítimo pluralismo. A prepotência do mais forte sobre o fraco seria a consequência lógica de uma tal impostação. Aliás, a marginalização do Cristianismo não poderia ajudar ao projecto de uma sociedade futura e à concórdia entre os povos; seria, pelo contrário, uma ameaça para os próprios fundamentos espirituais e culturais da civilização[26].  

IV. Considerações sobre aspectos particulares
7. Aconteceu, em circunstâncias recentes, que também dentro de algumas associações ou organizações de inspiração católica, surgiram orientações em defesa de forças e movimentos políticos que, em questões éticas fundamentais, exprimiram posições contrárias ao ensinamento moral e social da Igreja. Tais escolhas e alinhamentos, estando em contradição com princípios basilares da consciência cristã, não são compatíveis com a pertença a associações ou organizações que se definem católicas. Verificou-se igualmente, que certas revistas e jornais católicos em determinados países, por ocasião de opções políticas, orientaram os eleitores de modo ambíguo e incoerente, criando equívocos sobre o sentido da autonomia dos católicos em política, e não tendo em conta os princípios acima referidos. 


A fé em Jesus Cristo, que Se definiu a Si mesmo “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), exige dos cristãos o esforço de se empenharem mais decididamente na construção de uma cultura que, inspirada no Evangelho, reproponha o património de valores e conteúdos da Tradição católica. A necessidade de apresentar em termos culturais modernos o fruto da herança espiritual, intelectual e moral do catolicismo torna-se extremamente urgente e inadiável, até para se evitar o risco de uma diáspora cultural dos católicos. Por outro lado, a espessura cultural alcançada e a madura experiência de empenho político que os católicos, em diversos países, souberam exprimir, sobretudo nas décadas a seguir à segunda guerra mundial, não permite pô-los em nenhum complexo de inferioridade relativamente a outras propostas que a história recente mostrou serem fracas ou radicalmente falimentares. É insuficiente e redutivo pensar que o empenho social dos católicos possa limitar-se a uma simples transformação das estruturas, porque, não existindo na sua base uma cultura capaz de acolher, justificar e projectar as instâncias que derivam da fé e da moral, as transformações apoiar-se-iam sempre em alicerces frágeis.


A fé nunca pretendeu manietar num esquema rígido os conteúdos socio-políticos, bem sabendo que a dimensão histórica, em que o homem vive, impõe que se admita a existência de situações não perfeitas e, em muitos casos, em rápida mudança. Neste âmbito, há que recusar as posições políticas e os comportamentos que se inspiram numa visão utópica que, ao transformar a tradição da fé bíblica numa espécie de profetismo sem Deus, instrumentaliza a mensagem religiosa, orientando a consciência para uma esperança unicamente terrena que anula ou redimensiona a tensão cristã para a vida eterna.
Ao mesmo tempo, a Igreja ensina que não existe autêntica liberdade sem a verdade. “Verdade e liberdade ou se conjugam juntas ou miseramente juntas desaparecem”, escreveu João Paulo II[27]. Numa sociedade, onde a verdade não for prospectada e não se procurar alcançá-la, resultará também enfraquecida toda a forma de exercício autêntico de liberdade, abrindo-se o caminho a um libertinismo e individualismo, prejudiciais à tutela do bem da pessoa e da inteira sociedade.


8. A tal propósito, convém recordar uma verdade que hoje nem sempre é bem entendida ou formulada com exactidão na opinião pública corrente; a de que o direito à liberdade de consciência e, de modo especial, à liberdade religiosa, proclamado pela Declaração Dignitatis humanae do Concílio Vaticano II, está fundado sobre a dignidade ontológica da pessoa humana e, de maneira nenhuma, sobre uma inexistente igualdade entre as religiões e os sistemas culturais humanos[28]. Nesta linha, o Papa Paulo VI afirmou que “o Concílio, de modo nenhum, funda um tal direito à liberdade religiosa sobre o facto de que todas as religiões e todas as doutrinas, mesmo erróneas, tenham um valor mais ou menos igual; funda-o, invés, sobre a dignidade da pessoa humana, que exige que não se a submeta a constrições exteriores, tendentes a coarctar a consciência na procura da verdadeira religião e na adesão à mesma”[29]. A afirmação da liberdade de consciência e da liberdade religiosa não está, portanto, de modo nenhum em contradição com a condenação que a doutrina católica faz do indiferentismo e do relativismo religioso[30]; pelo contrário, é plenamente coerente com ela. 

V. Conclusão 
9. As orientações contidas na presente Nota entendem iluminar um dos mais importantes aspectos da unidade de vida do cristão: a coerência entre a fé e a vida, entre o evangelho e a cultura, recomendada pelo Concílio Vaticano II. Este exorta os fiéis “a cumprirem fielmente os seus deveres temporais, deixando-se conduzir pelo espírito do evangelho. Afastam-se da verdade aqueles que, pretextando que não temos aqui cidade permanente, pois demandamos a futura, crêem poder, por isso mesmo, descurar as suas tarefas temporais, sem se darem conta de que a própria fé, de acordo com a vocação de cada um, os obriga a um mais perfeito cumprimento delas”. Queiram os fiéis “poder exercer as suas actividades terrenas, unindo numa síntese vital todos os esforços humanos, familiares, profissionais, científicos e técnicos, com os valores religiosos, sob cuja altíssima jerarquia tudo coopera para a glória de Deus”[31].

O Sumo Pontífice João Paulo II na Audiência de 21 de Novembro de 2002 aprovou a presente Nota, decidida na Sessão Ordinária desta Congregação, e mandou que fosse publicada. 
Roma, sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 24 de Novembro de 2002, Solenidade de N. S. Jesus Cristo Rei do Universo. 

X Joseph Card. Ratzinger
Prefeito
X Tarcísio Bertone, SDB
Arcebispo emérito de Vercelli
Secretário
________________________________________
[1] Carta a Diogneto, 5.5. Cfr. também Catecismo da Igreja Católica, n. 2240.
[2] João Paulo II, Carta Apost. Motu Proprio dada para a proclamação de São Tomás Moro, Padroeiro dos Governantes e dos Políticos, n. 1, AAS 93 (2001) 76-80.
[3] Ibid., n. 4.
[4] Cfr.Concílio Vaticano II, Const. Past. Guadium et spes, n. 31; Catecismo da Igreja Católica, n. 1915.
[5] Concílio Vaticano II, Const. Past. Guadium et spes, n. 75.
[6] João Paulo II, Exort. Apost. Christifideles laici, n. 42, AAA             81 (1989) 393-521      . A presente Nota doutrinal refere-se obviamente ao empenho político dos fiéis leigos. Os Pastores têm o direito e o dever de propor os princípios morais também sobre a ordem social; “todavia, a participação activa nos partidos políticos é reservada aos leigos” (João Paulo II, Exort. Apost. Christifideles laici, n. 60). Cfr. também Congregação para o Clero, Directório para o ministério e a vida dos presbíteros, 31 de Março de 1994, n. 33. 
[7] Concílio Vaticano II, Const. Past. Guadium et spes, n. 76.
[8] Cfr. Ibid., n. 36.
[9] Cfr. Concílio Vaticano II, Decr. Apostolicam actuositatem, n. 7; Const. Dogm. Lumen gentium, n. 36 e Const. Past. Guadium et spes, nn. 31 e 43.
[10] João Paulo II, Exort. Apost. Christifideles laici, n. 42. 
[11] Nos últimos dois séculos, o Magistério pontifício várias vezes se ocupou das principais questões relativas à ordem social e política. Cfr. Leão XIII, Carta Enc. Diuturnum illud, ASS 14 (1881/82) 4ss; Carta Enc. Immortale Dei, ASS 18 (1885/86) 162ss; Carta Enc. Libertas praestantissimum, ASS 20 (1887/88) 593ss; Carta Enc. Rerum novarum, ASS 23 (1890/91) 643ss; Bento XV, Carta Enc. Pacem Dei munus pulcherrimum, AAS 12 (1920) 209ss; Pio XI, Carta Enc. Quadragesimo anno, AAS 23 (1931) 190ss. Carta Enc. Mit brennender Sorge, AAS 29 (1937) 145-167; Carta Enc. Divini Redemptoris, AAS 29 (1937) 78ss; Pio XII, Carta Enc. Summi Pontificatus, AAS 31 (1939) 423ss; Rádio-mensagens natalícias 1941-1944; João XXIII, Carta Enc. Mater et magistra, AAS 53 (1961) 401-464; Carta Enc. Pacem in terris, AAS 55 (1963) 257-304; Paulo VI, Carta Enc. Populorum progressio, AAS 59 (1967) 257-299; Carta Apost. Octogesima adveniens, AAS 63 (1971) 401-441.
[12] Cfr. João Paulo II, Carta Enc. Centesimus annus, n. 46, AAS 83 (1991) 793-867; Carta Enc. Veritatis splendor, n. 101, AAS 85 (1993) 1133-1228; Discurso ao Parlamento Italiano em sessão pública comum, n. 5, in:L’Osservatore Romano, 15 de Novembro de 2002.
[13] Cfr. João Paulo II, Carta Enc. Evangelium vitae, n. 22, AAS 87 (1995) 401-522.
[14] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. Past. Guadium et spes, n. 76.
[15] Ibid., n. 75.
[16] Cfr. Ibid., nn. 43 e 75.
[17] Cfr. Ibid., n. 25.
[18] Ibid., n. 73.
[19] João Paulo II, Carta Enc. Evangelium vitae, n. 73.
[20] Ibid.
[21] Concílio Vaticano II, Const. Past. Guadium et spes, n. 75.
[22] Catecismo da Igreja Católica, n. 2304.
[23] Concílio Vaticano II, Const. Past. Guadium et spes, n. 76.
[24] João Paulo II, Mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz de 1991: “Se queres a paz, respeita a consciência de cada homem”, IV, AAS 83 (1991) 410-421.
[25] João Paulo II, Exort. Apost. Christifideles laici, n. 59. A citação interna é do Concílio Vaticano II, Decr.Apostolicam actuositatem, n. 4.
[26] João Paulo II, Discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, in: L’Osservatore Romano, 11 de Janeiro de 2002.
[27] João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, n. 90, AAS 91 (1999) 5-88.
[28] Cfr.Concílio Vaticano II, Decl. Dignitatis humanae, n. 1: “O Sagrado Concílio professa, em primeiro lugar, que o próprio Deus manifestou ao género humano o caminho por que os homens, servindo-O, podem ser salvos e tornar-se felizes em Cristo. Acreditamos que esta única verdadeira religião se verifica na Igreja Católica”. Isto não impede que a Igreja nutra um sincero respeito pelas várias tradições religiosas; pelo contrário, considera que nelas estão presentes “elementos de verdade e bondade”. Cfr. Concílio Vaticano II, Const. Dogm. Lumen gentium, n. 16; Decr. Ad gentes, n. 11; Decl. Nostra aetate, n. 2; João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 55, AAS 83 (1991) 249-340; Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus, nn. 2. 8. 21, AAS 92 (2000) 742-765.
[29] Paulo VI, Discurso ao Sacro Colégio e aos Prelados Romanos, in: Insegnamenti di Paolo VI, 14 (1976) 1088-1089.
[30] Cfr. Pio IX, Carta Enc. Quanta cura, ASS 3 (1867) 162; Leão XIII, Carta Enc. Immortale Dei, ASS 18 (1885) 170-171; Pio XI, Carta Enc. Quas primas, AAS 17 (1925) 604-605; Catecismo da Igreja Católica, n. 2108; Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus, n. 22.
[31] Concílio Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, n. 43; Cfr. também João Paulo II, Exort. Apost.Christifideles laici, n. 59.

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